domingo, 13 de junho de 2010

Newton, Einstein e Deus



Os dois gigantes da física tinham uma relação íntima com certa versão do que se costuma chamar de Deus


TALVEZ ISSO SURPREENDA muita gente, mas tanto Newton quanto Einstein, sem dúvida dois dos grandes gigantes da física, tinham uma relação bastante íntima com Deus.

É bem verdade que o que ambos chamavam de "Deus" não era compatível com a versão mais popular do Deus judaico-cristão.

Numa época em que existe tanta disputa sobre a compatibilidade da ciência com a religião, talvez seja uma boa ideia revisitar o pensamento desses dois grandes sábios.

No epílogo da edição de 1713 de sua obra prima "Princípios Matemáticos da Filosofia Natural" (1686), Newton escreve que o seu Deus (cristão, claro) era o senhor do Cosmo e que deveria ser adorado por estar em toda a parte, por ser o "Governante Universal". Essa visão de Deus pode ser considerada panteísta, se entendermos por panteísmo a doutrina que identifica Deus com o Universo ou que identifica o Universo como sendo uma manifestação de Deus.

A visão que Einstein tinha de Deus, devidamente destituída da conotação cristã, ecoava de certa forma a de Newton. Einstein desprezava tudo o que dizia respeito à religião organizada, em particular a sua rígida hierarquia e ortodoxia.

Para ele, um Deus que se preocupava com o destino individual dos homens não fazia sentido. Sua visão era bem mais abstrata, baseada nos ensinamentos do filósofo Baruch Spinoza, que viveu no século 17.
Numa carta dirigida a Eduard Büsching, de 25 de outubro de 1929, Einstein diz: "Nós, que seguimos Spinoza, vemos a manifestação de Deus na maravilhosa ordem de tudo o que existe e na sua alma, que se revela nos homens e animais".

Em 1947, numa outra carta, Einstein escreveu: "Minha visão se aproxima da de Spinoza: admiração pela beleza do mundo e pela simplicidade lógica de sua ordem e harmonia, que podemos compreender".

Como essas posições podem ser usadas no debate sobre a compatibilidade da ciência com a religião?

De um lado, ateus radicais como Richard Dawkins, Christopher Hitchens e Sam Harris argumentam que não pode haver uma compatibilidade, que a religião é uma ilusão que precisa ser erradicada, que o sobrenatural é uma falácia.

De outro, existem vários cientistas que são pessoas religiosas e até mesmo ortodoxas, e que não veem qualquer problema em compatibilizar seu trabalho com a sua fé. O fato de existirem posições tão antagônicas reflete, antes de mais nada, a riqueza do pensamento humano. Nisso, vejo um ponto de partida para uma possível conciliação.

É verdade que o ateísmo radical está respondendo a grupos fundamentalistas que tentam evangelizar instituições públicas. "Guerra é guerra e devemos usar as mesmas armas", ouvi de amigos. Mas o pior que um fundamentalista pode fazer é transformar você nele.

Einstein e Newton encontraram Deus na Natureza e viam a ciência como uma ponte entre a mente humana e a mente divina.

Para eles, adorar a Natureza, estudá-la cientificamente, era uma atitude religiosa. Acho difícil ir contra essa posição, seja você ateu ou religioso. Religiões nascem, morrem e se transformam com o passar do tempo. Mas, enquanto existirmos como espécie, nossa íntima relação com o Cosmo permanecerá.

12 comentários:

  1. Físicos não são muito dados a etimologias. Religião quer dizer religar. A tanto, mister prévio desligamento. Logra-se o fenômeno na expulsão de Adão e Eva do Paraíso. Daí a vinda do Salvador, à religação, transcorreram alguns bilhões de anos.
    Isso tudo é fruto da parca cultura dos primatas gregos, levada aos romanos.
    E os formuladores citados, sendo um Isaac e outro "judeu-alemão", são expressões de seus DNAs.
    Avisão de Newton nada tem de Panteísta, pois separa o relógio do Relojoeiro, conquanto a de Spinoza entende que Ele faz parte do relogio.
    A propoitura spinoziana é de um Universo autoregido, o que se contrapõe diretamente ao determinismo newtoniano, para se aproximar não só da Física Quântica, como até da Relatividade.
    Chama de Deus, um processo eminentemente físico, tanto quanto os primatas viam a ira de Deus no inverno, e no trovão.

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  2. Intimidade com Deus, se fosse possível, não seria uma afronta, um pecado?

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  3. Meu caro Marcelo,
    Por acaso lhe sigo no twitter, digo por acaso por que quando vc tinha um quadro no fantástico,achava muito inteligente e comecei lhe seguir, e encontrei esse twitte sobre Newton, Einstein e Deus, não conheço muito sobre física, e religião muito menos,sobre física muito complicado e religião muito abstrata,agora a ideia desse três que vc falou nesse post parece um pouco com que penso sobre esse assunto.
    vou começar ler mais esse seu blog, parabéns por escrever sobre esse física.

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  4. O erro que temos cometido é o de reduzir Deus ao tamanho do homem. Deus tem mudado de forma à medida que o homem evolui. Estamos ainda longe de saber qual a verdadeira face do criador. Por enquanto, podemos ser homens de bem e seguir em frente sem radicalismos e dispostos a mudar sempre. Acho perigoso extremismos que nos prendem às elucubrações mentais. Me da até preguiça. Sem sombra de duvida estes 2 grandes homens podiam sentir a presença Divina na perfeição do universo. Isto basta para repensarmos nossa posição diante de nossos irmãos de caminhada, e da vida que nos rodeia.

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  5. Professor Marcelo,

    Esse post e a forma de Newton e Einstein pensar perante essa questão me faz refletir sobre o pensamento de Amit Goswami. A idéia do Universo auto consciente é cada vez mais algo que realmente podemos acreditar?

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  6. Marcelo, seu posto me despertou a curiosidade sobre o pensamento "teológico" de Spinoza.
    Não aceito o Deus Judaico-Cristão. Acredito que ele ficou pequeno para o nível de compreensão que a ciência e a filosofia do nosso tempo nos trazem.
    Se existir um Deus, acredito que ele será muito, mas muito diferente do que imaginamos.
    chase

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  7. Quando qualifico ou desqualifico as diferenças, afirmo que minha escolha é a melhor. O melhor sou eu.

    Quando as diferenças do diferente correspondem as minhas expectativas, o qualifico.

    Quando as diferenças do diferente não correspondem as minhas expectativas, o desqualifico.


    "Para aquilo que não pode ser dito, deve-se calar”.

    Wittgenstein

    Este pensamento epistemológico aponta algo que pode ser chamado de qualquer coisa; sem preconceitos, chamo de Deus. O Deus que fluiu, Divinamente no Spinoza lá pelos anos de mil seiscentos e cinqüenta e poucos... quando disse, trazendo luz ao panteísmo que "Deus não ama nem odeia. Deus É"

    Não existe diabo, nem maldade, nem bondade, nem melhor, nem pior. Existe desejo de felicidade que construo no amor ou na vingança. Por escolha ou incapacidade.

    Maldade é a felicidade que sinto quando o diferente sofre, seja quem for o diferente. Ex: bem feito!
    Bondade é a felicidade vinda do respeito, do amor e da compaixão pelo diferente.

    Essas emoções que trazem felicidade é Deus fluindo na massa de energia concentrada que me faz ser e me diferencia de todas as outras coisas.
    Sou nada diante do universo e ao mesmo tempo (tudo) parte dele.
    Se creio que sou eu que tenho amor, compaixão e respeito pelas diferenças, diferencio-me do outro nesse caso, em condição de superioridade, paralisando o sistema.

    Dawkins e outros cientistas, quando negam a existência de Deus, reafirmam a supremacia do EU que é (prisioneiro) dependente da crença da superioridade e inferioridade, maldade e bondade entre as diferenças, ficando submetido à emoção gerada no sentimento do amor pelo amor retornando eternamente a si.

    É o fim do EU, do diabo e do poder das religiões.

    Religião é manifestação cultural de fé de diferentes grupos. O que quer que ela seja, além disso, alimenta a valorização e os conflitos entre diferenças tornando-se paradoxais quando pregam o amor.

    Uma alegoria:

    A Terra é o núcleo de um átomo de uma célula de um órgão do infinito corpo de Deus.

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  8. Poliana M. Oliveira16 de junho de 2010 18:20

    Se os ateus radicais fossem religiosos, certamente iriam querer erradicar a ciência. Infelizmente os fundamentalistas conseguiram transformá-los neles...
    Que os ateus não creiam que Deus, que os cientistas não O procurem e que os religiosos rezem, mas...QUE TODOS AMEM!

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  9. Prezado Marcelo Gleiser:

    Costumo ler os artigos de sua autoria, publicados semanalmente na Folha de São Paulo. Considero-o um físico brilhante e aprecio as informações científicas que você divulga, de forma acessível ao público leigo. Considero elogiável sua atitude de, embora declarando-se não religioso, respeitar o fato de muitas pessoas crerem em Deus.

    Feito este preâmbulo, gostaria de expor minha discordância de uma afirmação contida em seu último artigo, intitulado “Newton, Einstein e Deus”, de 13/06/2010, a saber: que a visão de Deus de Isaac Newton possa “ser considerada panteísta, se entendermos por panteísmo a doutrina que identifica Deus com o Universo ou que identifica o Universo como sendo uma manifestação de Deus”.

    Penso que a cosmovisão de Isaac Newton não era panteísta, mas sim teísta e cristã. Parece-me correta a primeira parte de sua definição de panteísmo (doutrina que identifica Deus com o Universo), mas entendo que a segunda parte não é panteísmo. Identificar o Universo como uma manifestação de Deus faz parte da cosmovisão teísta judaico-cristã!

    O Salmo 19 – livro sagrado tanto para judeus como para cristãos – declara:
    “Os céus proclamam a glória de Deus, e o firmamento anuncia as obras das suas mãos. Um dia discursa a outro dia, e uma noite revela conhecimento a outra noite. Não há linguagem, nem há palavras, e deles não se ouve nenhum som; no entanto, por toda a terra se faz ouvir a sua voz, e as suas palavras, até aos confins do mundo”.

    O Apóstolo Paulo, na carta aos cristãos romanos (capítulo 1, v. 20) afirma:
    “Porque os atributos invisíveis de Deus, assim o seu eterno poder, como também a sua própria divindade, claramente se reconhecem, desde o princípio do mundo, sendo percebidos por meio das coisas que foram criadas”.

    Segundo a Teologia Cristã, “revelação geral” é o termo empregado para se referir ao fato de Deus fazer-se conhecido na criação, na consciência humana e na história. Este termo é usado em distinção a “revelação especial” de Deus, aquela que se dá pela pessoa de Jesus Cristo.

    A biografia de Isaac Newton não deixa dúvida de que este era religioso e dotado de uma cosmovisão teísta-cristã, tendo realizado estudos teológicos e escrito várias obras de conteúdo teológico, além de outras que supostamente diriam respeito ao ocultismo, à cronologia e à alquimia. É célebre a sua frase:
    “A maravilhosa disposição e harmonia do universo só pode ter tido origem segundo o plano de um Ser que tudo sabe e tudo pode. Isto fica sendo a minha última e mais elevada descoberta.”

    Albert Einstein, embora de origem judaica, não parecia ser adepto dessa religião. A carta dirigida a Eduard Büsching, citada em seu artigo, indica que ele teria adotado a cosmovisão panteísta de Spinoza.

    Espero ter contribuído para esclarecer essa relevante questão.

    Saudações,
    Luciano Carvalho – Brasília – DF.

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  10. Achei muito bom ler outra pessoa falando e referenciando 2 figura de extremo destaque como Einstein e Newton para uma coisa que eu sempre falo para qualquer público, seja de religião ou de ciência, e ainda mais, para gente sem um ou outro, que Deus existe e que é a inteligência suprema, causa primária de todas as coisas. Que se prova isso se olhando para o resultado da sua inteligência, olhando justamente para as leis que regem o universo. E essas duas pessoas não fizeram nada mais que isso: olha para a Natureza e transformar a natureza em formulas. Porém eles não criaram a gravidade, a relatividade, etc. Só deram nomes, formalizaram, qualificaram e quantificaram algo que já existe e foi muito bem criado.

    Enxergar a beleza das leis da natureza é extremamente fácil como fácil é concluir que o caos não tem inteligência a menos que o caos fosse inteligente. E ai atribuir inteligência ao caos se chega ao principal atributo de Deus (o nome que dou ao caos inteligente que alguns cientistas ou homens sem fé veneram como um deus), seja ele o nome que você queria dar. O próximo passo que a humanidade tem que dar é tornar ciência as leis que governam as relações humanas. Se as ciências da natureza (física, química, etc) já apresentam bons resultados, falta o homem melhorar as ciências das relações (as do amor) e sair do campo do místico e virar ciência. Isso é fácil de ver historicamente. A astrologia saiu do místico e virou astronomia, a alquimia saiu do místico e virou química, etc... A religião também que prega o Amor, tem que sair do místico e virar ciência. Deixar de pregar a salvação por fórmulas e rituais e mostrar ao homem a relação entre fazer o bem e progredir e fazer o mal e estacionar. A verdade que mostra a vida na terra como uma etapa na evolução moral do ser. Que somos um projeto voltado para aprender o caminho do bem que é o caminho do Amor o caminho planejado por Deus.

    Saudações,
    Germano-Recife-PE

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  11. Primeiro, acho que num mundo assolado pelo fanatismo, Dawkins está correto em ser mais "enfático".

    Segundo, Epicuro, em 300AC (se eu não me engano) já criava as bases de um ateísmo construtivo, baseado na amizade, filosofia e justo convívio social.

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  12. Quando me refiro às diferenças, apriore me refiro a Deus caso contrário expresso o vazio.

    Deus existe!

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