domingo, 15 de agosto de 2010

Uma ecologia espiritual



O respeito à vida como verdade universal leva a um estado em que agimos como os guardiões dela



ESTÁ NA HORA de irmos em frente e deixar para trás o desgastado embate entre a ciência e a religião, que já não rende nada. É preciso encontrarmos um novo rumo, ir além da polarização linear que vem caracterizando as discussões do papel da fé e da razão na vida das pessoas por mais de cem anos. A ciência não se propõe a roubar Deus das pessoas, e nem toda prática religiosa é anticientífica. Existe uma outra dimensão a ser explorada, ortogonal a esse eixo em torno do qual giram os argumentos mais comuns.

Um caminho possível é explorar valores morais de caráter universal que desafiem a linearidade do cabo de guerra entre a ciência e a religião.

Bem sei que, para muita gente, a proposta de encontrar valores morais universais representa já um beco sem saída. Relativistas culturais, por exemplo, argumentarão que esses valores universais não existem, que o que é certo para um pode ser errado para outro. Por exemplo, culturas nas quais a poligamia é aceita.

Para encontrar valores morais universais, precisamos ir mais fundo. Não podem ser valores que variem de cultura para cultura ou em épocas diferentes, como a ideia do casamento. Sugiro que o valor mais efetivo que podemos explorar vem da única certeza universal que temos: a morte.

A morte não é recebida com prazer em nenhuma cultura. Claro, alguns veem a morte como uma transição para uma nova vida, ou um mero aspecto de uma existência sem fim. Outros podem até vê-la como um ato heroico de martírio. Mas, tirando fundamentalistas radicais, ninguém em boa saúde física e mental escolhe morrer. Portanto, de todos os valores morais que podemos imaginar, proponho que o mais universal seja a preservação da vida.

Não me refiro apenas à vida humana. Quando percebemos o quanto nossas vidas dependem do planeta que habitamos, damos-nos conta de que precisamos agir para preservar todas as formas de vida. É óbvio que temos que garantir nossa existência, e que isso requer que consumamos alimentos. Mas esse consumo não precisa ser predatório. Pode ser planejado para que mantenha um equilíbrio saudável entre o que é produzido e o que é consumido.

Quanto mais saudável o planeta, mais saudável a economia. Isso pode não ser óbvio a curto prazo, mas em intervalos de décadas é. Este é o século em que finalmente iremos entender que precisamos estabelecer uma relação simbiótica com a Terra. Talvez essa seja a lição mais importante que a ciência moderna tem a ensinar.

O respeito à vida como moral universal leva a uma ecologia espiritual na qual nós, como espécie dominante do planeta, agimos como guardiões da vida. Com isso, a dimensão espiritual que nos é tão importante ganha expressão na devoção ao planeta e às suas formas de vida.

Esse senso de conexão espiritual com a natureza é celebrado tanto na ciência quanto na religião. De Einstein a Santa Teresa de Ávila (grato a Frei Betto, por me chamar atenção para esta obra), o mundo é festejado como sacro. As palavras variam, mesmo a motivação pode variar; mas, em sua essência, a mensagem é a mesma. Acho difícil encontrar uma moral universal mais básica do que o respeito à vida e ao planeta que a abriga de forma tão generosa. Ao menos, é um começo.

11 comentários:

  1. Olá,
    Um belo texto, mais um pouco místico, o comfronto entre ciência e religião é como vida e morte, uma depende da outra, que para mim é uma pena, as invenções cintíficas traz um bem estar para humanidade e sua antagônica não traz, a não ser sonho utópico.

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  2. em momento algum a ciência disse que é Deus, ou algo além dele, religião completa a ciência e ciência 'explica' a religião, de modo esquemático e distinto, isso se faz gerar um pólo com atrito de diversas opiniões opostas e a favores.
    Albert E. fez sua parte tentando mostrar que ciência e religião devem andar bem uma com a outra.
    já não estamos no tempo em que religião e ciência se veem como inimigas mortais, com o passar dos séculos a história de mortes por ideias incríveis foram desaparecendo, cabe agora continuar focando tudo a um todo, de modo em que todos possam usufluir de seus frutos.

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  3. Caro Marcelo,
    Como antropóloga não relativista sugiro que é necessário historicizar “A vida como bem supremo”: se vc leu esse esclarecedor texto de Hannah Arendt, sabe do que falo. Se não leu, leia.
    A noção humana do “sagrado” tem muitos sentidos, depende do espaço, do tempo e das pessoas que ambos habitam.
    Mas sem dúvida "sagrada" é a palavra exata para definir essa qualidade da vida no sentido que você a colocou.
    Queria saber se vc conhece a obra de Gregory Bateson: “Com o Deus-Eco não se brinca. Ele não redime nossa poluição por mais que imploremos seu perdão e aleguemos inocência.”
    Te envio o link de artigo de apresentação de G. Bateson publicado na Revista Ciência Hoje, da SBPC: http://www.overmundo.com.br/banco/as-ideias-vivas-de-gregory-bateson , se te interessar.
    Saúde e paz
    Mônica Lepri

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  4. ECOLOGIA ESPIRITUAL. Como guardião da vida faço este sagrado protesto. Não sou doutorado em tecnocracia. Sou um autodidata que observa os cientistas alertando para o perigo da explosão demográfica. Na confrência de Copenhague por exemplo, os tecnocratas tal como os mitos gregos do rei Midas, merecem cada um, um par de orelhas de burro por serem insensatos.
    Moral e Ética. "Pacífico é aquele que faz o que é sensato. Culpado é aquele que faz o que é insensato. "Pedra de Menfita, Primeira Dinastia do tempo do rei Menis, 3400 aC. encontrada por um egiptólogo". Ralph M. Lewis. artigo Rosacruz.

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  5. Achei texto e idéia perfeitos... Eu entendo o q o Marcelo quer dizer com o termo "espírito", mas pessoalmente eu o substituiria por "consciência coletiva"... Acho menos "místico" e mais adequado...

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  6. "Atenção, este não é um blog do próprio punho de Marcelo Geliser (sic)". Que pena! Por várias semanas, ignorei este aviso, e acreditei estar lendo um blog de verdade. De todo modo, os textos são ótimos, dignos de um divulgador científico à altura dos melhores que já houve neste planeta.

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  7. Em entrevista a uma revista, Marcelo Gleiser menciona que não concorda com os paralelos entre a ciência moderna e as tradições religiosas do Oriente, proposta por Fritjof Capra em seu livro "O Tao da Física."
    No entanto, quem acompanhou as publicações posteriores ao referido livro, pôde perceber, por sua vez, uma total convergência de idéias com o texto acima. Termos como teia da vida e ecologia profunda, utilizadas por Capra, revela a necessidade de "estabelecermos uma relação simbiótica com a Terra", exposta por Gleiser.
    Enfim, é com grande entusiasmo que encaro tal convergência de idéias vinda de cientistas de grande destaque e que almejam um mundo melhor.
    Afinal "A razão não tem nada a ver com o mundo dos valores. Este vem de outra região."

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  8. "A vida como bem supremo" é uma visão antropocêntrica.
    Não existe no Universo nada que indique que fenomenos raros são "supremos", por que a vida seria?

    Ecologia é uma maneira de "salvar a nossa pele" e nada mais.
    Claro, que as corporações aproveitam a onda para vender mais.

    Não se discute de fato de que, mais do que reciclar latinhas ou outras bobagens, deveríamos consumir menos e procriar menos (ou nada).

    Isso não costuma ser muito confortável pra pessoas individualistas, imersas num sistema social doente.

    Quanto a alguém que citou Einstein, deve-se avaliar que ele era judeu e pouco gostava de se confrontar com a religião, mas NUNCA que aceitava a visão de um Deus criador e moralista.

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  9. Excelente texto e parabéns pelo blog!

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  10. Gosto muito dos artigos de ótima qualidade do seu Blog. Quando for possível dá uma passadinha para ver nosso Curso de Ingles. Melissa

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  11. Marcelo Gleiser, estou gostando muitíssimos dos rumos que seu trabalho vem levando a você a trazer ao grande público não somente mais e mais conhecimentos acessíveis sobre a física e sobre a astronomia como, fundamentalmente, sobre nossa responsabilidade de boa conscientização sobre os cuidados com nossa Mãe-Terra, Gaia, nosso Planeta Natal!
    Seu Título ECOLOGIA ESPIRITUAL me lembrou um título que venho trabalhando desde há muito tempo e que venho expondo em meus textos: Cosmologia Espiritual - confira em http://cosmologiaespiritual.blogspot.com e saiba mais sobre meus outros trabalhos em http://paginadajanine.blogspot.com.
    Com um abraço estrelado, Janine Milward, guardiã do Sítio das Estrelas, parada de um caminho a Caminho do Céu.

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